segunda-feira, 7 de março de 2011

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Eram 10 horas da manhã quando sai de casa. Ia fazer a cobertura fotográfica de um show beneficiente no central park. Inverno de Nova Iorque, quase tão frio quanto meus sentimentos agora.
Não esperava nada desta manhã como já não esperava mais nada nos últimos dias, minha maior compania era provavelmente, meu trabalho. Que incrivelmente multiplicou, depois que deixei meu coração de lado (até um pouco da minha mente - pelo menos a parte que focava nela), pelo menos ocupava a cabeça com imagens de fotografias anonimas, ao invés daquele rosto.
Mas como minha alegria é condenada a durar pouco, sempre, eu a vi.
A vi andando pelo canteiro da calçada naquele sobretudo preto, seu cachecol xadres e as botas de camurça, o cabelo castanho, maldito cabelo castanho que cortava o vento com tamanha rigidez quanto as suas palavras.
Eu mal tinha noção de meus pensamentos quando estava perto daquela mulher, tão pouco de meus atos. Quando vi já havia atravessado a rua estava a poucos metros do pior momento da minha vida. Talvez minha pior besteira foi ter chamado o nome de...
-KRISTI! - Eu gritei.
Ela olhou para mim com aqueles olhos ferozes, por um momento até pensei que ela ia me matar por a ter chamado, se não fosse sua espressão mutante que me fez sentir abobadamente confortavel para continuar com aquilo que de certa forma, eu sabia que era necessário...
-Kristi. - Repeti novamente, porque sou idiota e eu amo seu nome tanto quando a amo...
- Mike! - Ela me respondeu surpresa, alegre, até demais. Ela veio ao meu encontro com aqueles braços abertos e me deu um abraço... Que abraço. Consegui sentir o cheiro do seu cabelo, do seu perfume, até do seu casaco que conseguia ser tão agradavel. Assim como sua pele que tocou a minha pele quando ela me deu um beijo estalado no rosto.
Mas, mas...
- Kristi, - PARA! - Onde vocês estava? Te liguei, mandei cartas, deixei mensagens na sua caixa postal, fui na sua casa, ATÉ NO SEU TRABALHO... - Ela riu...
- Mike, eu estava na Europa!
Espera. Kristi estava na Europa? Ela estava na Europa essas três semanas. HORRIVEIS TRÊS SEMANAS que mais me pareceram sete meses, ela estava na Europa curtindo as praia Francesas com um Frances narigudo enquanto eu estava aqui?
- Na Europa? - Repeti pois precisava tentar acreditar... - E nem me avisou? Por que não me avisou?
- Foi tudo muito rápido, só deu tempo de avisar meus pais... Fui a trabalho, nem pude aproveitar. - Sim... Sei.
- Ah claro, e você se isolou do mundo por lá? Onde você ficou não tinha meios de comunicação? - Sim, eu estava irritado. Quem não estaria? Você acaba de saber que a mulher que ama ficou três meses fora do país...CONTINENTE! E nem te avisou?
- Meu Deus Mike, nós estávamos namorando e eu nem sabia? - Ela sorriu, sinicamente. Era tudo que eu precisava.
- Na verdade, - Respirei fundo - Acho que eu só me esqueci de te avisar.
Ela me olhou. Me olhou de novo. Confusa, e esse poder que ela tem de te dizer tudo com os olhos me fez quebrar por dentro. Mas é claro! Que idiota, grande idiota Mike Silver é! Ela não fazia as coisas que fazia comigo do mesmo jeito que eu fazia com ela, ela não saia comigo pelos mesmos motivos que eu saia com ela, e ela não sentia por mim tudo que eu sentia por ela.
Mas eu precisava ter certeza.
- Kristi... Tudo que nós fizemos! Teatros, cinemas, as pizzas, restaurantes, festas, nossos... Quartos! - Eu já estava tremendo por dentro, mas não sei se era de raiva, agonia, desespero, tristeza...
- Mike, você sabe que eu gosto muito de você. - Ela disse. - E eu pensei que você soubesse que eu não queria as coisas desse jeito...
- NÃO... QUERIA... AS... COISAS? - Gritei, eu PRECISAVA gritar. Mais que tudo, eu precisava falar. - VOCÊ É MÁ! VOCÊ... BRINCOU COM MEUS SENTIMENTOS, PENSOU QUE PODIA BRINCAR COM MEU CORAÇÃO POR UM TEMPO E JOGOU NO LIXO! VOCÊ LITERALMENTE JOGOU ELE - Pausa. - NO LIXO...
MAS VOCÊ ESQUECEU KRISTI, QUE QUANDO NÓS JOGAMOS AS COISAS... - Minha voz tremeu, mas eu terminei. - Elas quebram.
De repente eu percebi que não adiantava gritar, pular, correr, nem chorar... Ela não ia sentir nada com isso apenas ia pedir...
- Desculpa - Talvez eu tenha conseguido deixar ela chocada, coisa que nunca me passou pela cabeça... - Mas eu não joguei nada no lixo não... Muito menos seu coração Mike.
Eu estava pensando em mim. - E as próximas palavras me acertaram bem no meio da cara, como um soco, um soco bem dado, digamos.
- Porque no final, eu não queria ter o MEU coração jogado fora... Então eu me protegi.
Não é que eu não te ame. Eu só - De repente ela virou outra pessoa. A Kristi durona, fria e calculista, que só demonstra seus mais simples sentimentos havia desaparecido na minha frente. E a Kristi sensivel e medrosa estava ali, praticamente me dizendo tudo que eu já sabia, só não queria acreditar que desse certo. E ela continuou. - Escolhi não te amar.
E foi com isso, que eu tomei uma outra decisão. Uma decisão certa, que eu sabia que não teria erro, e me faria ser obrigado a continuar.
- Então eu acho... - Pensei mais um pouco se era isso mesmo que eu queria fazer... - Eu acho que isso é um adeus? - Sim, era um adeus.
- Se é o único jeito de você me esquecer. Então eu acho que é. - E ela ainda tinha coragem de me falar essas coisas? Mas droga, ela sempre tinha razão. Mas uma coisa era fato:
- Nem que eu queira eu vou te esquecer...
Da mais pura inocência do fundo do meu coração, memórias dela eram o que me restavam.
Não teve abraço, não teve beijo de despedida nem aceno de mão. Mas teve um olhar daqueles que falam por si só, e nele eu li...
"Devia ter me avisado sobre o namoro Mike, seu idiota."

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